RESUMO
O objetivo do estudo foi investigar as motivações para a prática da musculação e uso de anabolizantes, assim como as representações e usos sociais do corpo entre usuários de anabolizantes praticantes de musculação. Foi realizado um estudo etnográfico com observação participante em academias de musculação de bairros de classe média e classes populares de Salvador, Bahia, Brasil, e realização de 43 entrevistas em profundidade com usuários de anabolizantes. A prática da musculação e o uso de anabolizantes, tanto entre usuários de classe média quanto populares, são motivados sobretudo por razões estéticas. A insatisfação com corpo real em comparação ao padrão ideal disseminado pela mídia, o receio de ser desvalorizado ou excluído do grupo de pares, o capital simbólico associado ao corpo "trabalhado" e o imediatismo na obtenção dos resultados favorecem o uso de anabolizantes
. Faz-se necessária a realização de campanhas de prevenção voltadas para os jovens que aliem a visão crítica na desconstrução dos valores associados ao corpo na sociedade de consumo à veiculação de informação de qualidade sobre os riscos à saúde no consumo de anabolizantes.
Introdução
Uma das facetas que tem caracterizado a sociedade de consumo contemporânea é a crescente importância atribuída à aparência corporal. Nas últimas décadas, o corpo tornou-se alvo de uma atenção redobrada com a proliferação de técnicas de cuidado e gerenciamento dos corpos, tais como dietas, musculação e cirurgias estéticas. Homens e mulheres investem cada vez mais tempo, energia e recursos financeiros no consumo de bens e serviços destinados à construção e manutenção do invólucro corporal. Por outro lado, alguns estudos mostram que em paralelo ao culto ao corpo tem aumentado a insatisfação das pessoas com seus corpos, assim como o consumo das chamadas "drogas da imagem corporal", entre as quais se incluem os esteróides anabólicos androgênicos ou anabolizantes 1.
Os anabolizantes são substâncias sintetizadas em laboratório, relacionadas aos hormônios masculinos (androgênios). O consumo destas substâncias produz efeitos anabólicos, como o aumento da massa muscular esquelética, e efeitos androgênicos ou masculinizantes. O aumento do consumo não terapêutico dos anabolizantes, especialmente entre a população jovem, tem sido relatado por pesquisadores em vários países 2,3,4,5,6 constituindo-se em crescente problema de saúde pública. As altas taxas de consumo de esteróides entre os jovens apontam para uma mudança no perfil dos usuários. O uso de anabolizantes, que antes era restrito a atletas e fisiculturistas, popularizou-se entre os jovens não atletas que passaram a utilizá-los para fins estéticos. Segundo Evans 4, dois terços dos usuários de anabolizantes são praticantes recreativos de musculação.
Nos Estados Unidos, estimativas recentes indicam a existência de 3 milhões de usuários. De 2,7% a 2,9% dos jovens adultos americanos usaram anabolizantes pelo menos uma vez em suas vidas 4. Outros estudos mostram que 4% a 6% dos estudantes do sexo masculino do Ensino Médio (high school) admitem ter usado anabolizantes em algum momento de suas vidas e que o uso por mulheres aumentou significativamente na última década 3. Estudos realizados no Canadá, Suécia, Inglaterra, Austrália e África do Sul relataram prevalências entre escolares do Ensino Médio (high school) que variam de 1% a 3% 3. Levantamentos realizados em academias de musculação revelam que a prevalência de uso destas drogas entre fisiculturistas é bastante alta, variando de 15% a 30% 4.
No Brasil, o consumo para fins estéticos dos anabolizantes ainda é pouco estudado. Estudos qualitativos como os de Iriart & Andrade 7 e Sabino 8 descrevem o grande consumo dessas substâncias, incluindo o uso de produtos veterinários, entre praticantes de musculação em Salvador (Bahia) e no Rio de Janeiro. Estudos quantitativos realizados em academias de musculação de São Paulo 9, Porto Alegre (Rio Grande do Sul) 10 e Goiânia (Goiás) 11 encontraram altas prevalências do uso de anabolizantes (respectivamente, 19%; 11,1% e 9%).
O uso abusivo de anabolizantes está associado a vários efeitos colaterais nocivos à saúde 3,4,12,13. No sistema reprodutivo masculino, o consumo de anabolizantes acarreta desequilíbrio hormonal com redução nos níveis de testosterona endógena podendo levar à ginecomastia, atrofia testicular, alterações na morfologia do esperma e infertilidade. Entre os efeitos dermatológicos, encontra-se a acne que, segundo Melnik et al. 6, ocorre em 50% dos usuários de anabolizantes e é um importante indicador clínico do abuso dessas substâncias.
O uso de anabolizantes também tem sido relacionado com fatores de risco cardiovasculares, existindo relatos de casos de hipertensão, hipertrofia ventricular, arritmia, trombose, infarto do miocárdio e morte súbita 4. A estrutura e função do fígado são alteradas pelo uso de anabolizantes podendo acarretar hepatite, hiperplasia e adenoma hepatocelular 3. Os efeitos colaterais se acentuam com o consumo de altas doses por longos períodos de tempo. É importante ressaltar, no entanto, que o consumo de anabolizantes por mulheres e adolescentes, mesmo por um curto período, pode ocasionar efeitos colaterais irreversíveis 4. Nas mulheres, tais efeitos incluem alterações na menstruação, engrossamento da voz, encolhimento dos seios, aumento da libido, crescimento de cabelos no corpo, e aumento do tamanho do clitóris 3. Outro ponto a ser destacado é que os efeitos colaterais associados ao uso destes produtos por longos períodos, tanto em doses terapêuticas quanto suprafisiológicas, ainda são desconhecidos 4. Complicações decorrentes da aplicação de anabolizantes por via parenteral também podem causar sérios problemas de saúde, como inflamações, fibroses musculares, infecções e abscessos. Somam-se a estes efeitos adversos o risco de contrair o HIV, ou os vírus das hepatites B e C pelo uso de equipamentos não estéreis de injeção 12.
Um volume crescente de literatura traz evidências também da associação entre o uso de anabolizantes e desordens psiquiátricas, como distúrbios de personalidade, depressão, mania, psicose, suicídio e aumento nos níveis de irritabilidade e agressividade podendo causar dependência 3,4,13.
No Brasil, vários casos de danos à saúde causados pelo consumo de anabolizantes têm sido relatados 7,9,10, mas pouco tem sido feito para prevenção do uso dessas substâncias entre os jovens.
O presente estudo teve por objetivo investigar as motivações para a prática da musculação e para o uso de anabolizantes, assim como as representações e usos sociais do corpo entre usuários de anabolizantes que praticam musculação em academias de bairros populares e de classe média de Salvador.
Perfil dos usuários de anabolizantes entrevistados
Dos 43 usuários entrevistados, 27 freqüentavam academias em bairros populares e 16 academias em bairros de classe média e alta; eram 37 homens e seis mulheres. Entre as mulheres, apenas uma usuária freqüentava academia em bairro popular. O pequeno número de usuários do sexo feminino identificados para entrevista está de acordo com o encontrado na literatura, que mostra a preponderância do sexo masculino no consumo de anabolizantes. Os usuários de anabolizantes praticantes de musculação em academias de bairros de classe média alta possuem alta escolaridade. Dos dezesseis entrevistados, nove são estudantes universitários e três possuem curso superior completo. Já nas academias dos bairros populares os praticantes de musculação entrevistados se caracterizam pela baixa e média escolaridade. Dos 27 entrevistados, 13 tem o Ensino Fundamental incompleto; sete tem o Ensino Médio completo e apenas um está cursando o Ensino Superior.
Substâncias mais utilizadas nas academias de bairros populares e de classe média
Entre os usuários das academias em bairros de classe média, as substâncias mais utilizadas foram Durateston (proprionato/fenilproprionato/isocaproato/caproato de testosterona; Organon, Brasil), Deca-durabolin (decanoanato de landrolona; Organon, Brasil) e Winstrol (estanozolol; Zambon, Espanha). Foram mencionados também o Deposteron (cipionato de testosterona; Sigma Pharma, Brasil), Primobolan (metenolona; Shering, México/Espanha/Alemanha), Hemogenin (oximetalona; Sanofi-Aventis, Sarsa/Hoechst Marion Roussel, Brasil) e produtos veterinários como Androgenol (testosterona animal; Hertape, Brasil) e ADE (complexo vitamínico; Labovet, Hertape e Pfizer, Brasil). Entre os usuários das academias dos bairros populares, as substâncias mais utilizadas foram Durateston, ADE e Deca-durabolin, seguidas de Estradon-p (testosterona e estradiol; Organon, Brasil), Hemogenin, Estigor (nandrolona animal e ADE; Burnet, Argentina), Potenay (complexo vitamínico veterinário e estimulante; Fort Dodge, Brasil), e Deposteron. Chama a atenção entre os usuários das academias dos bairros populares o grande consumo em doses muito elevadas de produtos veterinários, sendo os principais: o ADE, Androgenol, Estigor, Potenay e Equipoise ou Equifort (undecilenato de boldenona; Purina, Brasil). Os anabolizantes utilizados, em geral, são os que têm os preços mais acessíveis, enquanto os usuários de classe média recorrem freqüentemente a produtos importados e mais dispendiosos como o anabolizante Winstrol. Os anabolizantes Durateston e Deca-durabolin, no entanto, encontram-se entre os produtos mais utilizados tanto por usuários de classe média quanto das classes populares.
Razões para o uso de anabolizantes
A motivação primeira para o uso de anabolizantes é o imediatismo na obtenção do corpo desejado. Busca-se o rápido aumento de massa e definição muscular. No dizer de um informante: "conseguir em 3 meses o que conseguiria em 3 anos". A insatisfação com a lentidão do crescimento muscular na musculação "natural" ou a sensação de que está malhando, mas não está desenvolvendo musculatura foi trazida por alguns informantes como razão para o uso de anabolizantes. A comparação com colegas de academia que começaram a praticar musculação ao mesmo tempo e apresentaram rápido desenvolvimento muscular aparece como estímulo para o consumo, fortalecido pela cultura de uso de anabolizantes disseminada entre grupos que freqüentam as academias. Em uma das academias de um bairro popular em que foi realizada observação participante foi possível observar o uso explícito de anabolizantes. Os próprios praticantes aplicavam uns nos outros injeções de Durateston e ADE antes de iniciar a malhação. Na lixeira do banheiro da academia, a grande quantidade de seringas e agulhas descartáveis utilizadas atestava o grande consumo de anabolizantes. Os anabolizantes eram tema freqüentes de conversações e brincadeiras entre os praticantes de musculação.
Já os freqüentadores de academias de classe média e alta tendem a ocultar o seu uso, que é feito fora do espaço da academia, mostrando-se também mais reservados nas conversas sobre o consumo de anabolizantes. A maior parte dos instrutores de academias entrevistados condenou o uso de anabolizantes, enfatizando os efeitos danosos à saúde. Alguns, contudo, fazem ou já fizeram uso de esteróides. Um personal trainer justificou o uso de anabolizantes afirmando que necessita possuir um corpo musculoso e definido, pois assim consegue aumentar o número de alunos interessados em realizar aula particular. O seu corpo funcionaria como um espelho, refletindo o modelo de corpo no qual o aluno se inspiraria na busca de seus objetivos. Nas academias mais precárias dos bairros populares é comum que o instrutor seja autodidata. Em uma das academias na qual se realizou a observação participante o papel de instrutor era assumido por praticantes de musculação veteranos que orientavam os novatos.
Para os jovens, o pertencimento ao grupo de amigos é uma faceta fundamental de sua identidade e vários usuários entrevistados relataram o incentivo de amigos, namorados(as) e colegas de academia como um fator que favoreceu o uso de anabolizantes. O medo de ser desvalorizado entre os seus pares ou até mesmo de ser excluído do grupo favorece que o jovem busque se adequar ao padrão de corpo socialmente valorizado e acompanhe o comportamento do grupo no uso dos anabolizantes.
"Tomei só de onda, os outros tomando, fui na pilha e tomei também" (18 anos sexo masculino, classes populares).
"Eu via as pessoas se aplicando, aí comecei a me injetar também" (20 anos, sexo masculino, classes populares).
Entre os usuários das classes populares, os anabolizantes aparecem também como meio mais barato de construção do corpo ideal na ausência de recursos financeiros para comprar suplementos alimentares e manter uma alimentação adequada.
"E eu tomava suplemento alimentar tudo e não via nenhum [resultado],era caro, né? Complicado pra mim e o anabolizante era mais barato o efeito era rápido aí eu resolvi usar" (18 anos, sexo masculino, classes populares).
Para alguns entrevistados, particularmente os que desejam hipertrofiar exageradamente o corpo, os anabolizantes são a droga que permite ultrapassar os limites fisiológicos na perseguição do corpo ideal.
"Eu já malho há algum tempo. Eu percebi que eu cheguei num platô, não saia dali, eu queria mais. Então, anabolizante me proporcionou, pegar mais peso" (25 anos, sexo masculino, classe média).
Muitos entrevistados referiram não ter energia para malhar sem a utilização de anabolizantes. A musculação destituída de ajuda química torna-se um sacrifício pouco recompensante. Este fato, somado à rápida perda muscular quando se interrompe o uso dos anabolizantes, faz com que muitos usuários prolonguem o uso das drogas correndo o risco de tornarem-se dependentes: "...as pessoas pararam de me elogiar, pararam de me olhar. Então eu tenho que voltar a fazer minha musculação, tenho que voltar a ter meu corpo, tenho que crescer novamente. Aí tem aquele negócio do vício, né. Aí toma [anabolizante], aí sempre quer mais, quase sempre se convence de que não tá suficiente, não tá legal, não tá bom, e aí, desenfreia" (22 anos, sexo masculino, classes populares).

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